
18 anos!!!
Junho 17, 2025
A Força Invisível das Verdadeiras Ligações
Junho 18, 2025Reconhecer o gesto é importante. Mas ignorar o que ele revela seria perder uma oportunidade de dizer a verdade.
Recebi ontem um presente da Kukkiwon, a instituição mundial que deveria ser a guardiã do legado do Taekwondo. Um gesto simbólico, é certo, mas carregado de peso e contradição. Não senti orgulho ao recebê-lo. Senti silêncio. Não o silêncio leve de quem contempla algo bonito, mas o silêncio denso de quem sabe o que está por detrás do embrulho.
Não sou ingrato. Um gesto de reconhecimento, mesmo tímido, tem valor. Talvez este presente seja uma tentativa… uma tentativa de reconectar, de dizer “não nos esquecemos completamente”. E se for isso, aceito. Porque todo o recomeço começa por um passo. Mesmo que vacilante.
Mas é impossível não sentir o desconforto. O presente vem da casa que, em teoria, representa a essência do Taekwondo, mas que na prática tantas vezes parece rendida à burocracia, à política e ao espetáculo e que perdeu, não raras vezes, a ligação à base: aos transmissores, aos praticantes, aos valores.
Os que vivem o Taekwondo como via marcial, com disciplina, silêncio, carácter e entrega tornaram-se quase invisíveis. As federações desportivas nacionais olham-nos como números: úteis para relatórios, subsídios e estatísticas. O que ensinamos, o que transformamos, o impacto que temos nas vidas dos alunos… isso não interessa.
E, no entanto, são estas mesmas federações e treinadores que correm atrás da Kukkiwon sempre que precisam de validar um diploma de competidor para permitir que um atleta compita no estrangeiro. A ironia não podia ser mais clara: o que é exigido como padrão para uns, é oferecido como fast-food a outros. Um atleta com bons resultados em campeonatos recebe o diploma como se fosse um passaporte. Enquanto isso, outros passam anos a treinar, a ensinar, a viver a arte com seriedade, até o merecerem. No fim, estão todos “certificados”. Indiscutível perceber quem está realmente formado.
Este facilitismo acaba por se reflectir onde mais dói: na qualidade dos treinadores. Cada vez mais vemos formação fraca, marcada apenas por objectivos desportivos, sem qualquer profundidade marcial. Ensina-se Taekwondo como se fosse apenas um desporto. Como se a filosofia, o ritual e o caminho interior fossem pormenores dispensáveis. Como se formar campeões em vez de formar pessoas fosse suficiente. Chegámos ao ponto absurdo de ver até federações de Karaté e de Kempo a quererem formar treinadores de Taekwondo. É a tradição a ser diluída em conveniência.
Aceito este gesto simbólico, sim. Mas sem ilusões. Os verdadeiros transmissores do Taekwondo, os que mantêm a chama viva mesmo sem palco, merecem mais do que presentes. Merecem ser ouvidos, respeitados e verdadeiramente valorizados.
Talvez este presente seja apenas uma memória envernizada de uma dívida muito maior. A dívida com todos os que continuam a carregar o Taekwondo nas costas com dignidade e resiliência, mesmo quando o sistema os ignora.
Mas há uma coisa que o tempo ensina: a verdade sobrevive sempre ao ruído. E quando o brilho das medalhas se apagar e os relatórios deixarem de impressionar, serão os invisíveis que ainda estarão de pé. Não os que subiram ao pódio. Mas os que nunca deixaram o caminho morrer.
Sei que, provavelmente, no futuro seremos cada vez mais raros. Mentores e praticantes que ainda se recusam a diluir o Taekwondo em nome da conveniência. E é natural que, atletas e treinadores habituados a tanto facilitismo, poucos queiram mergulhar na imensidão profunda do que o Taekwondo tem para oferecer. Porque o verdadeiro Taekwondo não é entregue é conquistado. Não se aprende em atalhos mas no tempo, dor, carácter.
Porque o que é profundo não seduz ao primeiro olhar, exige entrega. E hoje, poucos estão dispostos a isso.
Não somos “os velhos do restelo”, somos a raiz que ninguém vê, mas que sustenta tudo. E mesmo que hoje pareçamos poucos, basta um passo com verdade para ecoar por gerações. O Taekwondo espera. Não dos que correm, mas dos que sabem parar, respirar… e continuar.
Recebi ontem um presente da Kukkiwon, a instituição mundial que deveria ser a guardiã do legado do Taekwondo. Um gesto simbólico, é certo, mas carregado de peso e contradição. Não senti orgulho ao recebê-lo. Senti silêncio. Não o silêncio leve de quem contempla algo bonito, mas o silêncio denso de quem sabe o que está por detrás do embrulho.
Não sou ingrato. Um gesto de reconhecimento, mesmo tímido, tem valor. Talvez este presente seja uma tentativa… uma tentativa de reconectar, de dizer “não nos esquecemos completamente”. E se for isso, aceito. Porque todo o recomeço começa por um passo. Mesmo que vacilante.
Mas é impossível não sentir o desconforto. O presente vem da casa que, em teoria, representa a essência do Taekwondo, mas que na prática tantas vezes parece rendida à burocracia, à política e ao espetáculo e que perdeu, não raras vezes, a ligação à base: aos transmissores, aos praticantes, aos valores.
Os que vivem o Taekwondo como via marcial, com disciplina, silêncio, carácter e entrega tornaram-se quase invisíveis. As federações desportivas nacionais olham-nos como números: úteis para relatórios, subsídios e estatísticas. O que ensinamos, o que transformamos, o impacto que temos nas vidas dos alunos… isso não interessa.
E, no entanto, são estas mesmas federações e treinadores que correm atrás da Kukkiwon sempre que precisam de validar um diploma de competidor para permitir que um atleta compita no estrangeiro. A ironia não podia ser mais clara: o que é exigido como padrão para uns, é oferecido como fast-food a outros. Um atleta com bons resultados em campeonatos recebe o diploma como se fosse um passaporte. Enquanto isso, outros passam anos a treinar, a ensinar, a viver a arte com seriedade, até o merecerem. No fim, estão todos “certificados”. Indiscutível perceber quem está realmente formado.
Este facilitismo acaba por se reflectir onde mais dói: na qualidade dos treinadores. Cada vez mais vemos formação fraca, marcada apenas por objectivos desportivos, sem qualquer profundidade marcial. Ensina-se Taekwondo como se fosse apenas um desporto. Como se a filosofia, o ritual e o caminho interior fossem pormenores dispensáveis. Como se formar campeões em vez de formar pessoas fosse suficiente. Chegámos ao ponto absurdo de ver até federações de Karaté e de Kempo a quererem formar treinadores de Taekwondo. É a tradição a ser diluída em conveniência.
Aceito este gesto simbólico, sim. Mas sem ilusões. Os verdadeiros transmissores do Taekwondo, os que mantêm a chama viva mesmo sem palco, merecem mais do que presentes. Merecem ser ouvidos, respeitados e verdadeiramente valorizados.
Talvez este presente seja apenas uma memória envernizada de uma dívida muito maior. A dívida com todos os que continuam a carregar o Taekwondo nas costas com dignidade e resiliência, mesmo quando o sistema os ignora.
Mas há uma coisa que o tempo ensina: a verdade sobrevive sempre ao ruído. E quando o brilho das medalhas se apagar e os relatórios deixarem de impressionar, serão os invisíveis que ainda estarão de pé. Não os que subiram ao pódio. Mas os que nunca deixaram o caminho morrer.
Sei que, provavelmente, no futuro seremos cada vez mais raros. Mentores e praticantes que ainda se recusam a diluir o Taekwondo em nome da conveniência. E é natural que, atletas e treinadores habituados a tanto facilitismo, poucos queiram mergulhar na imensidão profunda do que o Taekwondo tem para oferecer. Porque o verdadeiro Taekwondo não é entregue é conquistado. Não se aprende em atalhos mas no tempo, dor, carácter.
Porque o que é profundo não seduz ao primeiro olhar, exige entrega. E hoje, poucos estão dispostos a isso.
Não somos “os velhos do restelo”, somos a raiz que ninguém vê, mas que sustenta tudo. E mesmo que hoje pareçamos poucos, basta um passo com verdade para ecoar por gerações. O Taekwondo espera. Não dos que correm, mas dos que sabem parar, respirar… e continuar.




