
A Força Invisível das Verdadeiras Ligações
Junho 18, 2025
Qual é a arte marcial mais perigosa?
Julho 25, 2025Taekwondo em Portugal: A Tradição que Se Perdeu e o Legado Que Resta
Quando olho para o estado atual do Taekwondo em Portugal, o que sinto não é só tristeza. É um lamento profundo, uma frustração silenciosa que ecoa nos dojangs vazios, nos doboks pendurados e nas histórias esquecidas. Muitos dos mestres que deram tudo de si – corpo, alma e tempo para erguer esta arte no nosso país – estão, hoje, relegados ao esquecimento. As suas escolas estão fechadas ou às moscas. Alguns, de tanto lutar contra a maré, simplesmente deixaram de remar.
Mestres esquecidos e escolas abandonadas: o preço do esquecimento
É um cenário estranho, mas não surpreendente. E a pergunta que me persegue é: como deixaram isto acontecer? Como é que aqueles que abriram os caminhos da nossa arte acabaram isolados, afogados num silêncio que ninguém quer ouvir?
O verdadeiro pioneiro ignorado: Mestre Chung Sun Yong e a falta de gratidão
Para compreender esta decadência, é preciso regressar ao início. O Mestre que trouxe o Taekwondo para Portugal, Chung Sun Yong, o verdadeiro pioneiro, é hoje lembrado apenas numa data comemorativa, como se a sua importância coubesse num rodapé de calendário. É ignorado pelas elites federativas desportivas e pelas “nobrezas” auto-proclamadas do Taekwondo nacional. A homenagem que lhe é devida, justa e inegável, foi-lhe negada por vaidade, por política ou simplesmente por ingratidão. E no entanto, se ele não tivesse atravessado fronteiras para semear esta arte aqui, muitos de nós ainda estaríamos a jogar ao berlinde em vez de praticar esta arte incrível.

Crescimento Rápido, Raízes Fracas
A expansão do Taekwondo em Portugal, embora inspirada, nasceu com feridas. O mestre fundador, movido pela urgência e entusiasmo, confiou, na maioria dos casos, a expansão da arte a pessoas sem raiz nem base sólida no Taekwondo. Muitos vieram de outras artes marciais, outros com pouca ou nenhuma formação técnica marcial. Faltou paciência para formar discípulos com tempo, suor e reverência. Optou-se por um crescimento rápido, ocidental, onde o imediato venceu o essencial. Uma visão impaciente que chocou de frente com os princípios orientais da hierarquia, da disciplina e da lentidão sagrada que formam os verdadeiros mestres.
Quando o Taekwondo virou negócio: diplomas vendidos, valores perdidos
Tudo o que se conquista com facilidade, perde-se com desinteresse. E isso começou a refletir-se cedo nas escolas… sem valor, sem profundidade, sem verdadeiro respeito. Muitos, ainda instrutores, trocaram o caminho pelo atalho e o Taekwondo virou negócio. O esforço das graduações era exigido apenas a quem lhes pagava mensalidade e vendidas sem suor a quem chegava de fora com a carteira aberta. Houve quem vendesse diplomas falsos a alunos que lhes confiaram anos de treino, emitidos por entidades fantasmas e pagos a preço de ouro. E pior: muitos realizaram exames, cobraram valores exorbitantes por diplomas provenientes da Coréia… e nunca os entregaram aos seus alunos. Outros, em busca de poder e protagonismo, romperam com o mestre fundador e foram procurar reconhecimento sobretudo no país vizinho, onde intermediários lhes garantiam as graduações e, acima de tudo, os diplomas da Kukkiwon, para depois afirmarem que eram eles os únicos com autoridade para os requisitar. Esqueceram-se, ou quiseram esquecer, que naquela altura a própria Kukkiwon ainda era uma estrutura em formação, um bebé sem regras claras, vulnerável à exploração.
O resultado? Diplomas inflacionados, processos opacos e tempos de espera inexplicáveis: documentos que, pela via oficial, chegariam em três ou quatro meses, levavam dois ou três anos a aparecer, quando apareciam… pois muitos desses diplomas simplesmente nunca vieram, porque o dinheiro… já tinha servido outros propósitos.
Má gestão e abandono: quando se perde a alma do Taekwondo
Hoje, muitos dos mestres que se encontram com escolas vazias continuam a repetir os mesmos erros. Quando antigos alunos regressam, atraídos pelo “cheiro” de diplomas, são acolhidos, tratados como amigos, recebem o que pedem… e depois são deixados sozinhos outra vez. Deve ser uma frustração profunda, porque não é só a falta de alunos, é a perda do propósito e da verdadeira missão.
Outro veneno subtil foi a ambição desmedida. Houve mestres que quiseram estar em todo o lado, expandir, mais ginásios, mais horários. E nessa ânsia, esqueceram-se dos seus próprios alunos. Faltou presença, faltou acompanhamento. E no fim, faltou alma. Porque o Taekwondo é feito de gente; sem gente, não há arte, só espaço vazio.
A Ferida Mais Profunda
A ferida mais grave, porém, está na perda da identidade. Hoje, muitos cintos negros não sabem sequer de que linhagem são. Alguns escondem essa verdade, ou porque a origem é dúbia, ou porque simplesmente não têm a legitimidade que afirmam… ou, mais tristemente ainda, porque nem eles próprios sabem, nem querem saber. Para piorar, muitos têm vergonha de revelar quem foi ou é o seu mestre, não por respeito, mas por medo dos danos e das falhas que esses mestres cometeram. É uma vergonha que corrói a base do que deveria ser orgulho e respeito pelas raízes. Sem identidade, sem verdade, não há arte, só imitação vazia.
A resistência silenciosa: mestres que mantêm viva a essência do Taekwondo
No meio deste cenário desolador, ainda existem mestres que resistem, que mantêm acesa a chama do verdadeiro Taekwondo. São poucos, mas são firmes. São discretos, mas têm raízes fundas. Curiosamente, muitos deles tiveram de se afastar, de quebrar o ciclo, de procurar fora do país a verdadeira sabedoria que, cá dentro, já se confundia com vaidade e conveniência. Foram beber da fonte, aprender com quem vive a arte com rigor e humildade. E hoje, os seus alunos não herdam só técnicas: herdam valores, história, linhagem. E isso vale mais do que qualquer medalha, qualquer pódio… ou qualquer cinto apertado com ego.
Linhagem não se compra: o valor invisível da verdadeira herança marcial
Palavras do meu mestre:
“Na Coréia, ninguém te pergunta qual é a tua graduação. Perguntam-te: quem te formou? Quem é o teu mestre?”
Porque um cinto pode ser comprado; pode ser dado ou até roubado. Mas a linhagem…A linhagem tem de ser conquistada com verdade, tempo e honra. Carrega o sangue invisível dos que vieram antes de nós. E essa, não se falsifica.
Proteger a raiz: o dever de manter vivo o legado do Taekwondo
Hoje, mais do que nunca, temos uma responsabilidade que ultrapassa o treino físico ou a técnica. Temos de proteger a raiz. Manter viva a chama da tradição. Não é olhar para o passado com saudosismo cego, mas com a reverência de quem sabe que ali estão os alicerces do que somos. Não podemos permitir que o Taekwondo se torne um produto de consumo rápido, uma máscara vazia. Não podemos aceitar que os verdadeiros mestres, os que construíram com sacrifício e silêncio, sejam varridos para as margens da história por modas passageiras ou ambições fúteis.
Links relacionados:
As elevadas graduações e as escolas vazias.




